FORA DE MODA

Me pedem dicas. Me vêm à cabeça: consumo antenado; a jovem estilista esperta que ninguém conhece, mas eu já estou usando; a banda incrível que está acontecendo em Berlim, mas ainda não pegou no Brasil, só no meu iPod e no de uns poucos. A velha tríade bullshit contemporânea: bombação, hype e poder. Muita euforia, pouca alegria. Moda é tão chato que muda de seis em seis meses. Cansei de ser moderna, quero ser eterna.

Dica 1: respire. Acompanhe o ar entrando pelas suas narinas, enchendo seus pulmões, perceba o modo como o ar ocupa sua caixa torácica, como abre suas costelas, aprenda a conduzir o ar dentro de você, entenda que exalar mais longo que a inspiração acalma, concentra, limpa a mente. Para respirar: medite, pratique ioga, cante. Cantando a gente é mais feliz e ainda aprende a brincar com o ar e som através do corpo.

Dica 2: lembre-se de que você tem um corpo. Leve seu corpo pra fazer o exercício de que ele gosta. Esse papo de que exercício tem que ser perto de casa é pra quem não gosta do exercício que faz. Pesquise, vasculhe, experimente, descubra o que satisfaz o teu corpo. Quais são os exercícios que te dão tesão, a frequência com que você gosta de praticá-los, o tempo dedicado e o horário certo (em exercício disciplina é necessário, e disciplina é incrível, é ritmo). Só alcancei essa espécie de nirvana da endorfina aos 29 anos, quando encontrei a natação e a iyengar ioga – e conquistei um corpo. Hoje nado três vezes por semana, entre 2 mil e 2,5 mil metros, e faço iyengar terça e quinta. Tudo sempre à noite – é um jeito de reinventar a vida todo dia, de reencontrar o centro às vezes perdido à tarde, de respirar.

Dica 3: o jeito mais incrível de respirar é mergulhando. O ar puro vai direto do tanque pro cérebro, liga e relaxa, ao mesmo tempo. Na água, o ar não é silêncio. Faz bolha, faz bloooooommmm, que o é Om marítimo – mergulhadores e budistas, os homens do fundo do mar e das alturas, têm muito mais a ver do que imagina nossa vã filosofia. Mergulhar é sair de si, parar o pensamento, entrar no espaço-tempo líquido, ver com os olhos detrás da cabeça, estar em estado de pura contemplação. Um bom mergulho equivale à experiência de uma obra de arte estonteante, mas um belíssimo mergulho pode ser maior.

Dica 4: esteja sempre aprendendo. Música, línguas, mergulho, corte e costura, qualquer coisa que te entusiasme. Use outros lados do cérebro. Se você escreve, aprenda música. Se é dentista, dance. Surfe se for professor de francês. E não ande sempre na rua escutando iPod. É claro que é incrível, mas desconecta demais do presente – embora às vezes, muitas, aliás, seja o que a gente precisa. Aprenda a observar os lugares pelos quais você sempre passa. Olhe as árvores da sua rua. Acompanhe a floração dos flamboyants ou o nascimento da folhagem das amendoeiras do seu bairro. Observe como a luz varia ao longo do dia, ao longo do ano. É mágico.

Dica 5: olhe para dentro, olhe para o céu, fale menos da vida alheia, se preocupe mais com a sua própria e aproveite toda essa conexão interior, esse belo cuidado de si, pra se jogar nas baladas certas com amigos doidos ótimos e se estragar sem freios, pudor ou ressaca no dia seguinte – com ajuda do santo Oxiboldine ao chegar em casa.

Dica 6: a única com cara de formadora (bullshit) de opinião: trabalho é uma das grandes formas de se apaixonar, pode sim ser delicioso, mas ficou cafona essa onda de trabalhar loucamente e nunca ter tempo pra si. Estamos decretando que isso acabou. A gente agora quer ser mais feliz.

Antonia Pellegrino - Revista TPM #91

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